quinta-feira, 28 de junho de 2007

“ Você tem medo de se apaixonar. Medo de sofrer o que não está acostumada. Medo de se conhecer e esquecer outra vez. Medo de sacrificar a amizade. Medo de perder a vontade de trabalhar, de aguardar que alguma coisa mude de repente, de alterar o trajeto para apressar encontros. Medo se o telefone toca, se o telefone não toca. Medo da curiosidade, de ouvir o nome dele em qualquer conversa. Medo de inventar desculpa para se ver livre do medo. Medo de se sentir observada em excesso, de descobrir que a nudez ainda é pouca perto de um olhar insistente. Não suportar ser olhada com esmero e devoção. Nem os anjos, nem Deus agüentam uma reza por mais de duas horas. Medo de ser engolida como se fosse líquido, de ser beijada como se fosse líquen, de ser tragada como se fosse leve. Você tem medo de se apaixonar por si mesma logo agora que tinha desistido de sua vida. Medo de enfrentar a infância, o seio que criou para aquecer as mãos quando criança, medo de ser a última a vir para a mesa, a última a voltar da rua, a última a chorar. Você tem medo de se apaixonar e não prever o que pode sumir, o que pode desaparecer. Medo de se roubar para dar a ele, de ser roubada e pedir de volta. Medo de que ele seja um canalha, medo de que seja um poeta, medo de que seja amoroso, medo de que seja um pilantra, incerta do que realmente quer, talvez todos em um único homem, todos um pouco por dia. Medo do imprevisível que foi planejado. Medo de que ele morda os lábios e prove o seu sangue. Você tem medo de oferecer o lado mais fraco do corpo. O corpo mais lado da fraqueza. Medo de que ele seja o homem certo na hora errada, a hora certa para o homem errado. Medo de se ultrapassar e se esperar por anos, até que você antes disso e você depois disso possam se coincidir novamente. Medo de largar o tédio, afinal você e o tédio enfim se entendiam. Medo de que ele inspire a violência da posse, a violência do egoísmo, que não queira repartir ele com mais ninguém, nem com seu passado. Medo de que não queira se repartir com mais ninguém, além dele. Medo de que ele seja melhor do que suas respostas, pior do que as suas dúvidas. Medo de que ele não seja vulgar para escorraçar mas deliciosamente rude para chamar, que ele se vire para não dormir, que ele se acorde ao escutar sua voz. Medo de ser sugada como se fosse pólen, soprada como se fosse brasa, recolhida como se fosse paz. Medo de ser destruída, aniquilada, devastada e não reclamar da beleza das ruínas. Medo de ser antecipada e ficar sem ter o que dizer. Medo de não ser interessante o suficiente para prender sua atenção. Medo da independência dele, de sua algazarra, de sua facilidade em fazer amigas. Medo de que ele não precise de você. Medo de ser uma brincadeira dele quando fala sério ou que banque o sério quando faz uma brincadeira. Medo do cheiro dos travesseiros. Medo do cheiro das roupas. Medo do cheiro nos cabelos. Medo de não respirar sem recuar. Medo de que o medo de entrar no medo seja maior do que o medo de sair do medo. Medo de não ser convincente na cama, persuasiva no silêncio, carente no fôlego. Medo de que a alegria seja apreensão, de que o contentamento seja ansiedade. Medo de não soltar as pernas das pernas dele. Medo de soltar as pernas das pernas dele. Medo de convidá-lo a entrar, medo de deixá-lo ir. Medo da vergonha que vem junto da sinceridade. Medo da perfeição que não interessa. Medo de machucar, ferir, agredir para não ser machucada, ferida, agredida. Medo de estragar a felicidade por não merecê-la. Medo de não mastigar a felicidade por respeito. Medo de passar pela felicidade sem reconhecê-la. Medo do cansaço de parecer inteligente quando não há o que opinar. Medo de interromper o que recém iniciou, de começar o que terminou. Medo de faltar as aulas e mentir como foram. Medo do aniversário sem ele por perto, dos bares e das baladas sem ele por perto, do convívio sem alguém para se mostrar. Medo de enlouquecer sozinha. Não há nada mais triste do que enlouquecer sozinha. Você tem medo de já estar apaixonada.”

(Fabrício Carpinejar)

“O amor é tudo, menos convencimento. O amor não é razão, é desejo. O desejo arruma razões - as mais diferentes - para se preservar. Por isso, parece tão alucinado e contraditório. Por dentro, o amor não se mexe. Por fora, o amor modifica.

A idealização não desmascara. Entendo que a idealização salva, porque ela sonda universos imaginários para aperfeiçoar o nosso.
Conhecer uma mulher na sua intimidade é insubstituível. Não se troca interesses, mas assume-se um interesse em comum: o de não ter interesses para permanecer juntos.
É mais do que colocar a escova de dente ao lado da outra, ou de acordar acompanhado, ou de enfrentar as dívidas e os problemas. Amor é recuperar a alegria miúda de não depender de mais nada para ser feliz. Nem de si mesmo. É a pobreza, não a ambição, que mantém o amor acordado.

Está esquecendo toda a generosidade que envolve o amor. A doação. O esvaziamento dos preconceitos intelectuais. A necessidade de mudar os costumes ou enobrecê-los. A partir dele, saímos dos próprios condicionamentos.
Caso não goste de jazz, ela poderá ensinar o quanto é bom. Caso ela não goste de futebol, de repente estará torcendo como se fizesse parte da torcida organizada.
Exato: só nos aceitamos quando o outro nos ensina o que somos. Nossa complacência, nossa tolerância não permite a transparência. Nos perdoamos porque estamos acostumados a fazer sempre igual.
Como o amor, o igual é diferente. O igual é observado com atenção e minúcia. O igual é assistido.
O amor é tão cheio de sentido e fúria, que parece sem sentido quando queremos defini-lo.”

(FABRÍCIO CARPINEJAR)

Esse é o mundo que eu guardei só pra ti.
Cada pedacinho dele tem o meu olhar e a tua lembrança. Cada ângulo experimentado assim, na tua companhia.
Cada recorte feito pensando em ti. Cada pensamento te levando comigo, pra conhecer esse mundo que é todinho meu.
Talvez tu não te lembres de todos os detalhes. Talvez tenhas esquecido que um dia estiveste lá.
Mas, podes ter certeza, esse mundo é nosso, porque te carrego comigo pra todo e qualquer lugar.
" O tempo presente e o tempo passado

Estão ambos talvez presentes no tempo futuro,

E o tempo futuro contido no tempo passado.

Se todo o tempo é eternamente presente

Todo o tempo é irredimível.

O que podia ter sido é uma abstração

Permanecendo possibilidade perpétua

Apenas num mundo de especulação.

O que podia ter sido e o que foi

Tendem para um só fim, que é sempre presente.

Ecoam passos na memória

Ao longo do corredor que não seguimos

Em direção à porta que nunca abrimos

Para o roseiral.

As minhas palavras ecoam

Assim, no teu espirito.

(...)

(T. S. Eliot)

Não te enganes. Eu faço parte da tua vida, mesmo que não percebas, como tu estás em quase todo lugar que eu vou. Te carrego comigo como parte da minha história, às vezes presença constante, às vezes mera lembrança. O que fica não muda, apenas nos faz mudar.

Não te preocupa se não encontrares palavras bonitas, as verdadeiras me importam mais. Mesmo que sejam palavras ao vento, bate-papo, pura filosofia de buteco. Conversamos. Sempre. Basta chamar.

terça-feira, 19 de junho de 2007

Não foi preciso uma mísera palavra

Pois o teu silêncio veio carregado delas todas.

Não foi preciso escolher a melhor forma de dizer adeus

Pois a tua ausência me disse muito mais.

A tua omissão rasgou por entre os meus ouvidos

A tua falta de notícias calou todos os meus motivos

O que não disseste gritou, ensurdeceu, ecoou

Falou comigo e me tirou toda a paz.

Nenhuma mensagem de texto, carta ou sinal de fumaça

Somente a espera e a angústia flutuando pelo ar

Somente a imaginação, a suspeita, a inferência

Somente a tela em branco me colocando em meu lugar.

Não foi preciso responder e tudo foi respondido

Já não havia sentido para todas aquelas perguntas.

Não foi preciso ter coragem, atitude, sinceridade

A tua falta de respeito me doeu como traição.

Foi a tua covardia quem veio me olhar nos olhos

Foi a tua indiferença, que me doeu de todos os modos,

O teu silêncio que me mandou rua afora

Embora, sozinha, falando com a escuridão.

Nenhuma mensagem de texto, carta ou sinal de fumaça

Somente a espera e a angústia flutuando pelo ar

Somente a imaginação, a suspeita, a inferência

Somente o vazio e eu, em silêncio, a chorar.

quinta-feira, 24 de maio de 2007

Eles serão felizes para sempre. Se não para sempre, pelo menos por um bom tempo, tempo suficiente para que um dos dois perca o interesse e sinta novamente o apelo irresistível do cheiro cambiante da conquista. Eles são iguais, intensos, ruidosos, exibicionistas. Ambos especialistas no jogo da sedução. Gostam de demonstrar paixão, gostam de ser objeto de desejo e devoção. Juntos, eles riem da minha figura triste. Juntos, eles me mostram que não há movimento para voltar atrás.

Eles complementarão um ao outro só para me atiçar com aquilo que não posso ter. Eles serão feitos um para o outro apenas para me mostrar que ele não foi feito pra mim. Eles serão inseparáveis somente até que a mágoa e o desalento sejam suficientes para me fazer esquecer.

Eles serão felizes para sempre. Tomara que o “pra sempre” não demore muito pra chegar.

A nossa filosofia é lenda, é promessa vazia. È o elo que mantém o que já não tem mais como se sustentar. Cada um pra um lado, cada um vivendo a sua vida, e mesmo assim essa angústia de não se separar. Eu finjo que acredito nos seus elogios ocos, você finge que elogia pra me fazer sorrir. A gente dialoga em silêncio forçado, esperando sempre a hora de se despedir.

Você diz que me adora como quem diz “não me odeie”. Eu respondo apenas com educação.

Você sabe que é impossível eu não gostar de você, embora eu tenha decidido que isso não tem mais razão.

E já não me resta quase esperança de a gente possa se entender, quem sempre lutou por isso fui eu. Pra você é tão simples ir e vir pelo seu desejo. Pra você é tão fácil nunca dizer adeus.

Aos poucos eu canso desse jogo de palavras que não significam, mas fazem doer. Que me amarram aos caprichos da sua falsa inocência, que me fazem sentir que, quem sabe, pode ser.

Você fez uma escolha e foi me deixar sozinha, mas ainda quer garantia de que eu estarei aqui, afinal. A nossa filosofia é lenda, é história, é a esperança, é aquilo que não me deixa colocar um ponto final.

A outra apareceu esses dias lá em casa. Sem aviso ou cerimônia, foi entrando de malas nos braços, querendo ficar. Aí foi aquela confusão, ela já querendo ocupar o meu espaço, eu tentando mandar embora, explicando que não ia dar certo. No fim, não teve jeito de fazê-la ir. Então, combinamos que ela se manteria mais recolhida dessa vez. Tudo bem sair de vez em quando, dar uma espiada. Mas nada de ficar na rua até tarde, nada de fazer alarde, nada de se espalhar pela sala e dominar a conversa.

Por enquanto tem funcionado. Ela costuma vir de leve agora, só quando eu fico sozinha, no carro ou no banho, só pra não perder o hábito. Ela já perdeu um pouco da fúria, do sentimento de urgência, já não assume mais o controle como costumava fazer. Mas ainda assim ela me perturba, me desestabiliza, me tira do sério, machuca, assusta. Tudo por causa dele, dele que ela, eu mesma, a outra não me deixa esquecer.

Sou catadora de lixo, me apego com facilidade ao que já não tem valor. Guardo entre as mãos, com cuidado e reverência, o entulho retorcido do que um dia existiu entre nós. Recolho os escombros do sentimento, os restos da relação que mal e mal existiu, cada palavra, cada beijo, cada sorriso, tudo o que você descartou sem sentir remorso ou pesar. Vejo beleza naquilo que você abandonou. Vejo sentido no que pra você já não tem razão. Minhas posses são sonhos encardidos e lembranças rotas, que levo comigo por todo lado que vou.

Abrigo com ardor esses pequenos tesouros, suspiros, silêncios, cheiros e gostos, na tentativa estéril de não esquecer. Eles são tudo o que me resta, o que me move, o que me conserva, o que me impede de desaparecer.

quarta-feira, 23 de maio de 2007

Basta olhar para as velhas fotos para perceber que estou diferente. As mudanças são visíveis quando se compara uma imagem de hoje a outra de alguns anos (ou mesmo alguns dias) atrás. No entanto, em mais um paradoxo daqueles que agora dominam praticamente todas as esferas da minha vida, as feições permanecem as mesmas, reconhecíveis logo de cara, como se tudo continuasse igual.

Observando com atenção, fica difícil descrever exatamente o que mudou. O corte de cabelo, a cor da pele, talvez uma ou outra ruguinha querendo aparecer (esse dia chega pra todas, meninas)... Mas o que, exatamente, me faz diferente hoje do que costumava ser ? Difícil explicar.

O tempo exerce seu efeito sobre todos nós. A vida faz-se marcar naquilo que somos a cada momento. A essência muda, mas nunca deixa de ser o que é.

Um paradoxo, uma contradição. Esta sou eu, a mesma de sempre e, ao mesmo tempo, uma completa desconhecida.

sexta-feira, 18 de maio de 2007

"Oh, maybe I think maybe I don't
Maybe I will maybe I won't
Find my way this time
I hear you're calling me soon

One of these days
Some of these days, and somebody pays
It happens all the time
I'll believing, believing you wanted me to

* And maybe I'm a fool for walking in line
And maybe I should try to lead this time
I'm an honest mistake that you made
Did you mean to?
Did you mean?
Oh, did you mean?

** Love is just a game
Broken all the same
And I will get over you
Love is just a lie
Happens all the time
Swear I know this much is true

Oh, and they coloured you up
They coloured you down, they coloured you in
And I've been waiting so long
To take you home

And maybe I think, maybe I don't
Maybe I will, maybe I won't
Find my way tonight
But I hear you're calling me soon"

(Magic Numbers - Love's a Game)

quarta-feira, 16 de maio de 2007

Ter identidade é coisa de gente moderna. Pós-moderno é descentrado, deslocado, fragmentado. Pós-moderno tem identificações sucessivas, uma hora é uma coisa, daqui a pouco é outra, sem deixar de ser quem é (ou melhor, por isso mesmo sendo quem é). O novo sujeito (se é que ainda podemos falar em sujeito) assume diversas máscaras, cultiva a mutabilidade do seu eu, flana em liberdade pelas milhares de opções que lhe são apresentadas e que não cessam de se proliferar.

Raul Seixas chamou de “metamorfose ambulante”, Mike Featherstone fala em “conjunto de quase-eus”. Eu digo: mudar de cabelo e mudar de cabeça. Não tem programa melhor pra um sábado de manhã.

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Diz o ditado que "quem canta seus males espanta", ou ainda “quem canta os vizinhos espanta”, hehehe. A verdade, creio eu (e aí entramos em outra discussão, de que verdade falamos ? Da verdade ontológica, história socialmente construída, da verdade pessoal de cada um, imaginário e cultura... melhor deixar pra lá), é que cantar envolve um misto de exposição e intimidade, empenho e aceitação, ousadia e timidez que dificilmente encontra parâmetros ou similar. É quase uma “catarse individual”, que pode assumir proporções inimagináveis quando incentivada pelo coletivo. É como conectar-se consigo mesmo e com todo mundo na volta de uma só vez.

Cantar é colocar pra fora, é sentir-se compreendido porque alguém, um dia, fez uma música que parece ter sido escrita sob encomenda. É poder dizer o que se pensa, mas em palavras bonitas, com ritmo que contagia e uma orquestra inteira (ou a banda de amigos da facul) pra acompanhar.

Cantar pode não trazer de volta aquele amor perdido, pode não levar embora aquela preocupação que persegue e assombra, pode não resolver todos os seus problemas e nem oferecer, inteiramente de grátis, um brinde especial. Mas cantar é divertido pra cacete e isso é tudo que cantar precisa ser.

Porque vibro em consonância com a massa, me integro à cola que mantém unido o social. Mesmo que por breves 90 minutos, mesmo que de forma efêmera e descontinuada, em meio aos cantos que enchem o estádio e ao concreto que vibra no mesmo timbre dos pés e mãos em movimento, sou parte do ser social. Em contato com o outro, compreendo o mundo e a mim mesmo, compartilho e formo laços, faço parte daquilo que constitui o espírito do tempo.

É por isso que eu vou no jogo ao invés de me ater aos livros. Faça parte do objeto, diz o Maffesoli. E eu vou.

sexta-feira, 27 de abril de 2007

Eu sou aquilo que vejo, eu sou aquilo que falo

Sou manifesta em desejo, sou tudo aquilo que calo.

Sou como você me enxerga e como me enxergo também

Sou o que quero até onde posso e, às vezes, muito mais além.

Sou aquilo que compartilho e o que é meu em particular

Sou o caminho que trilho e o destino que quero alcançar

Sou a música que toca quando fecho os olhos em devaneio

Sou as pessoas que amo, sou as conquistas que anseio

Sou todos os livros que li e os amigos que fiz pela estrada

Sou cada obstáculo e medo, sou cada dor superada

Sou todo filme que gosto, sou cada sabor que escolhi

Sou as batalhas que quis enfrentar e também aquelas das quais corri

Sou fruto das minhas escolhas, sou rumo da minha vida

Sou lógica e contradição, sou coesa e sou dividida.

Sou tantas coisas ao mesmo tempo que, às vezes, até me esqueço

Sou estranha a mim mesma, nem sempre me reconheço.

Sou uma, sou muitas e logo já serei outra.

Sou eu e isso me basta.

quinta-feira, 26 de abril de 2007

Quem me vê toda sorridente não sabe a dor que carrego aqui dentro, desconhece a náusea que me consome as entranhas, não imagina tudo aquilo que penso. O turbilhão de frases que ele me disse, misturadas ao que eu mesma já me falei, tentando me convencer de que já não é mais hora, tentando entender o que já não sei. Procuro fazer a coisa certa em um mundo que só me dá opções erradas. Procuro encontrar o melhor caminho em uma avenida que não tem mais entradas. Querendo cair no esquecimento, na doce embriaguez do sono senil. Querendo romper com todo o passado, deixar tudo isso de lado, sair desse buraco vazio.

Meu sorriso é meu melhor escudo, mas, grande ironia, não me protege de mim.

quinta-feira, 19 de abril de 2007

Eu tenho outra por dentro que só aparece quando o amor chama. Mas daí ela toma conta, se espalha por tudo como se fosse a dona da casa e, por um bom tempo, não quer mais sair. A outra é feita de extremos por dentro e por fora, tem saudade daquela que dói, que acelera a respiração e não deixa pensar em mais nada. A outra não conhece limite, não respeita espaço ou horário, querendo invadir o outro também. Ela sabe cobrar na mesma medida que se oferece inteira. Se enche de fúria, de dúvida e de medo na hora em que deveria ser mais feliz. A outra persegue, paranóica, prevalecida. Está sempre correndo atrás de alguém que nunca consegue alcançar. A outra não se sacia, não se completa, não se contenta. Quer sempre mais e mais e mais e mais e mais. A outra só vive pra ele, existe pra ele, se molda pra ele. Cada passo ou decisão é em busca do seu olhar.

A outra muda o cabelo, dá risada em troca de nada, compra roupa nova e é feliz, imensamente feliz, feliz de dar inveja só pra ele saber. A oura mantém contato, pra garantir que não vai ser esquecida, sem notar que é ela que não consegue esquecer. Arruma desculpa, procura história escondida em palavras, se recusa a acreditar e por isso não consegue ver. A outra sofre de dar dó, chora escondida no cantinho do banheiro e chora de novo voltando pra casa, mas nunca deixa ninguém saber. A outra não se dá por vencida, por mais que apanhe, não vai embora, por mais que eu a mande. Que merda, a outra sou eu.

terça-feira, 3 de abril de 2007

Quando fecho os olhos é que realmente te vejo.

É na tua ausência que te tornas a melhor companhia.

É no meu silêncio que conversamos por horas e horas.

Quando não dizes nada, tua voz se torna poesia.

Quando cai a chuva eu sinto teu cheiro.

Quando estás longe, eu realmente posso te beijar.

Quando não te tenho é que te entregas por inteiro.

Porque é só no meu amor que eu sei que podes me amar.

E, nesses versos de pé quebrado,

É que te conto tudo o que quero dizer;

Te amo, te odeio, me revelo, desabafo.

É uma pena que nunca venhas a ler.

Pobre narciso, de olhos fechados, não enxerga mais do que o seu egoísmo pode ver.

Perdido em si mesmo, pelos próprios humores atado, pensa que é livre, mas é escravo daquilo que não pode ter.

Pobre narciso de espírito quebrado, não enxerga a si mesmo a não ser pelos olhos de quem lhe dá atenção.

Seu sorriso esconde que, desnorteado, busca, quase desesperado, na mão do outro o seu momento de redenção.

Pobre narciso afogado no espelho, enfeitiça e seduz aqueles que passam pelo seu caminho.

Mas narciso não se doa, não troca, não afaga, não sabe existir a não ser que seja sozinho.

Pobre narciso que, com seu canto triste, esconde a solidão que aos pouco lhe mata, esvaindo-se em nada de forma sutil.

Sua imagem distorcida, abstrata, não reflete mais nada além do próprio vazio.

quinta-feira, 15 de março de 2007

Ele é branco ou preto, nunca cinza.
Ai de mim, que sou feita de matiz.

quarta-feira, 14 de março de 2007



" And now I'm all alone again
Nowhere to turn, no one to go to.
Without a home, without a friend
without a face to say hello to
But now the night is near
And I can make-believe he's here

Sometimes I walk alone at night
When everybody else is sleeping
I think of him and then I'm happy
With the company I'm keeping
The city goes to bed
And I can live inside my head"

(
C.-M. Schoenberg; Boublil/ Kretzmer, On My Own, Aponine's theme)
(Imagem:
A Rose in Misery, for original edition of Les Misérables)

O meu choro ninguém pode ouvir

Gritando abafado dentro de mim

Minha lágrima não rola no rosto

Presa no olho, sem começo, sem fim.

O nó na garganta que me sufoca

Não modifica o tom da minha fala

A náusea que come o meu corpo por dentro

Não me enfraquece, empalidece ou abala.

Sofro calada como a pena do meu algoz

Em triste silêncio que aos poucos me mata.

Sofro sem ao menos saber o porquê

Dessa mudança repentina, alteração insensata.

Sofro pelo descaso de quem me dizia o mundo

E, agora, já não me diz mais nada.

Dia desses fui às compras, ver se achava uma chave de trancar coração. O meu andava escancarado, desprotegido, à mercê de qualquer mão-leve que passasse por ali. Primeiro procurei na ferragem, mas o moço atrás do balcão me disse que só se fosse de ferro, zinco ou latão. O meu era de desejo, então, decidi continuar.

A parada seguinte foi no serralheiro. Já que a chave estava difícil de achar, então que ele me fizesse uma grade, daquelas com flechas na ponta, pra intimidar qualquer tentativa de aproximação. Mas, infelizmente, o meu coração também não se prestava pra isso. “Falta uma base pra colocar a grade”, disse ele, “esse seu é muito aberto, muito frouxo, desse jeito qualquer um pode entrar”.

Cansada, já meio triste, pensei que me restava apenas mais um recurso: abandoná-lo de vez num velho cofre de banco, alheio ao mundo lá fora, quietinho, protegido em meio à escuridão. Entrei decidida pela porta que girava e a arma na cintura do guarda me certificou ainda mais da decisão já tomada. Segui firme pelo saguão, passos rápidos, o barulho do salto ecoando pelo piso encerado. Parei no balcão, o coração apertado entre os dedos, pronto pra ser engavetado. Respirei fundo e só então percebi o menino que me sorria do outro lado. Foi o que bastou pra tudo se resolver. Na hora estendi os braços e, simples assim, meu coração foi acolhido no dele, satisfeito e sereno, seguro e feliz.

Welcome to the life inside my head.

Começar um blog é meio como ficar nu na frente do espelho. Não tem como não enxergar cada pedacinho de pele exposta, cada pequeno sinal ou cicatriz, cada traço delicado ou firme que faz de cada um a pessoa que é. Mais do que a exposição pra quem quiser ver, me assusta um pouco me enxergar assim, tão de perto. Talvez ainda não tenha aprendido a separar o personagem dos meus textos da pessoa que os escreve, mas o que é de ambos me interessa muito mais. O quanto vem de mim e o quanto vem do mundo é o que pretendo descobrir. Quem sabe assim consiga enxergar melhor um e outro, porque, somente olhando no espelho, ainda não consegui.