Eu tenho outra por dentro que só aparece quando o amor chama. Mas daí ela toma conta, se espalha por tudo como se fosse a dona da casa e, por um bom tempo, não quer mais sair. A outra é feita de extremos por dentro e por fora, tem saudade daquela que dói, que acelera a respiração e não deixa pensar em mais nada. A outra não conhece limite, não respeita espaço ou horário, querendo invadir o outro também. Ela sabe cobrar na mesma medida que se oferece inteira. Se enche de fúria, de dúvida e de medo na hora em que deveria ser mais feliz. A outra persegue, paranóica, prevalecida. Está sempre correndo atrás de alguém que nunca consegue alcançar. A outra não se sacia, não se completa, não se contenta. Quer sempre mais e mais e mais e mais e mais. A outra só vive pra ele, existe pra ele, se molda pra ele. Cada passo ou decisão é em busca do seu olhar.
A outra muda o cabelo, dá risada em troca de nada, compra roupa nova e é feliz, imensamente feliz, feliz de dar inveja só pra ele saber. A oura mantém contato, pra garantir que não vai ser esquecida, sem notar que é ela que não consegue esquecer. Arruma desculpa, procura história escondida em palavras, se recusa a acreditar e por isso não consegue ver. A outra sofre de dar dó, chora escondida no cantinho do banheiro e chora de novo voltando pra casa, mas nunca deixa ninguém saber. A outra não se dá por vencida, por mais que apanhe, não vai embora, por mais que eu a mande. Que merda, a outra sou eu.
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