Dia desses fui às compras, ver se achava uma chave de trancar coração. O meu andava escancarado, desprotegido, à mercê de qualquer mão-leve que passasse por ali. Primeiro procurei na ferragem, mas o moço atrás do balcão me disse que só se fosse de ferro, zinco ou latão. O meu era de desejo, então, decidi continuar.
A parada seguinte foi no serralheiro. Já que a chave estava difícil de achar, então que ele me fizesse uma grade, daquelas com flechas na ponta, pra intimidar qualquer tentativa de aproximação. Mas, infelizmente, o meu coração também não se prestava pra isso. “Falta uma base pra colocar a grade”, disse ele, “esse seu é muito aberto, muito frouxo, desse jeito qualquer um pode entrar”.
Cansada, já meio triste, pensei que me restava apenas mais um recurso: abandoná-lo de vez num velho cofre de banco, alheio ao mundo lá fora, quietinho, protegido em meio à escuridão. Entrei decidida pela porta que girava e a arma na cintura do guarda me certificou ainda mais da decisão já tomada. Segui firme pelo saguão, passos rápidos, o barulho do salto ecoando pelo piso encerado. Parei no balcão, o coração apertado entre os dedos, pronto pra ser engavetado. Respirei fundo e só então percebi o menino que me sorria do outro lado. Foi o que bastou pra tudo se resolver. Na hora estendi os braços e, simples assim, meu coração foi acolhido no dele, satisfeito e sereno, seguro e feliz.
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