quinta-feira, 24 de maio de 2007

Eles serão felizes para sempre. Se não para sempre, pelo menos por um bom tempo, tempo suficiente para que um dos dois perca o interesse e sinta novamente o apelo irresistível do cheiro cambiante da conquista. Eles são iguais, intensos, ruidosos, exibicionistas. Ambos especialistas no jogo da sedução. Gostam de demonstrar paixão, gostam de ser objeto de desejo e devoção. Juntos, eles riem da minha figura triste. Juntos, eles me mostram que não há movimento para voltar atrás.

Eles complementarão um ao outro só para me atiçar com aquilo que não posso ter. Eles serão feitos um para o outro apenas para me mostrar que ele não foi feito pra mim. Eles serão inseparáveis somente até que a mágoa e o desalento sejam suficientes para me fazer esquecer.

Eles serão felizes para sempre. Tomara que o “pra sempre” não demore muito pra chegar.

A nossa filosofia é lenda, é promessa vazia. È o elo que mantém o que já não tem mais como se sustentar. Cada um pra um lado, cada um vivendo a sua vida, e mesmo assim essa angústia de não se separar. Eu finjo que acredito nos seus elogios ocos, você finge que elogia pra me fazer sorrir. A gente dialoga em silêncio forçado, esperando sempre a hora de se despedir.

Você diz que me adora como quem diz “não me odeie”. Eu respondo apenas com educação.

Você sabe que é impossível eu não gostar de você, embora eu tenha decidido que isso não tem mais razão.

E já não me resta quase esperança de a gente possa se entender, quem sempre lutou por isso fui eu. Pra você é tão simples ir e vir pelo seu desejo. Pra você é tão fácil nunca dizer adeus.

Aos poucos eu canso desse jogo de palavras que não significam, mas fazem doer. Que me amarram aos caprichos da sua falsa inocência, que me fazem sentir que, quem sabe, pode ser.

Você fez uma escolha e foi me deixar sozinha, mas ainda quer garantia de que eu estarei aqui, afinal. A nossa filosofia é lenda, é história, é a esperança, é aquilo que não me deixa colocar um ponto final.

A outra apareceu esses dias lá em casa. Sem aviso ou cerimônia, foi entrando de malas nos braços, querendo ficar. Aí foi aquela confusão, ela já querendo ocupar o meu espaço, eu tentando mandar embora, explicando que não ia dar certo. No fim, não teve jeito de fazê-la ir. Então, combinamos que ela se manteria mais recolhida dessa vez. Tudo bem sair de vez em quando, dar uma espiada. Mas nada de ficar na rua até tarde, nada de fazer alarde, nada de se espalhar pela sala e dominar a conversa.

Por enquanto tem funcionado. Ela costuma vir de leve agora, só quando eu fico sozinha, no carro ou no banho, só pra não perder o hábito. Ela já perdeu um pouco da fúria, do sentimento de urgência, já não assume mais o controle como costumava fazer. Mas ainda assim ela me perturba, me desestabiliza, me tira do sério, machuca, assusta. Tudo por causa dele, dele que ela, eu mesma, a outra não me deixa esquecer.

Sou catadora de lixo, me apego com facilidade ao que já não tem valor. Guardo entre as mãos, com cuidado e reverência, o entulho retorcido do que um dia existiu entre nós. Recolho os escombros do sentimento, os restos da relação que mal e mal existiu, cada palavra, cada beijo, cada sorriso, tudo o que você descartou sem sentir remorso ou pesar. Vejo beleza naquilo que você abandonou. Vejo sentido no que pra você já não tem razão. Minhas posses são sonhos encardidos e lembranças rotas, que levo comigo por todo lado que vou.

Abrigo com ardor esses pequenos tesouros, suspiros, silêncios, cheiros e gostos, na tentativa estéril de não esquecer. Eles são tudo o que me resta, o que me move, o que me conserva, o que me impede de desaparecer.

quarta-feira, 23 de maio de 2007

Basta olhar para as velhas fotos para perceber que estou diferente. As mudanças são visíveis quando se compara uma imagem de hoje a outra de alguns anos (ou mesmo alguns dias) atrás. No entanto, em mais um paradoxo daqueles que agora dominam praticamente todas as esferas da minha vida, as feições permanecem as mesmas, reconhecíveis logo de cara, como se tudo continuasse igual.

Observando com atenção, fica difícil descrever exatamente o que mudou. O corte de cabelo, a cor da pele, talvez uma ou outra ruguinha querendo aparecer (esse dia chega pra todas, meninas)... Mas o que, exatamente, me faz diferente hoje do que costumava ser ? Difícil explicar.

O tempo exerce seu efeito sobre todos nós. A vida faz-se marcar naquilo que somos a cada momento. A essência muda, mas nunca deixa de ser o que é.

Um paradoxo, uma contradição. Esta sou eu, a mesma de sempre e, ao mesmo tempo, uma completa desconhecida.

sexta-feira, 18 de maio de 2007

"Oh, maybe I think maybe I don't
Maybe I will maybe I won't
Find my way this time
I hear you're calling me soon

One of these days
Some of these days, and somebody pays
It happens all the time
I'll believing, believing you wanted me to

* And maybe I'm a fool for walking in line
And maybe I should try to lead this time
I'm an honest mistake that you made
Did you mean to?
Did you mean?
Oh, did you mean?

** Love is just a game
Broken all the same
And I will get over you
Love is just a lie
Happens all the time
Swear I know this much is true

Oh, and they coloured you up
They coloured you down, they coloured you in
And I've been waiting so long
To take you home

And maybe I think, maybe I don't
Maybe I will, maybe I won't
Find my way tonight
But I hear you're calling me soon"

(Magic Numbers - Love's a Game)

quarta-feira, 16 de maio de 2007

Ter identidade é coisa de gente moderna. Pós-moderno é descentrado, deslocado, fragmentado. Pós-moderno tem identificações sucessivas, uma hora é uma coisa, daqui a pouco é outra, sem deixar de ser quem é (ou melhor, por isso mesmo sendo quem é). O novo sujeito (se é que ainda podemos falar em sujeito) assume diversas máscaras, cultiva a mutabilidade do seu eu, flana em liberdade pelas milhares de opções que lhe são apresentadas e que não cessam de se proliferar.

Raul Seixas chamou de “metamorfose ambulante”, Mike Featherstone fala em “conjunto de quase-eus”. Eu digo: mudar de cabelo e mudar de cabeça. Não tem programa melhor pra um sábado de manhã.

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Diz o ditado que "quem canta seus males espanta", ou ainda “quem canta os vizinhos espanta”, hehehe. A verdade, creio eu (e aí entramos em outra discussão, de que verdade falamos ? Da verdade ontológica, história socialmente construída, da verdade pessoal de cada um, imaginário e cultura... melhor deixar pra lá), é que cantar envolve um misto de exposição e intimidade, empenho e aceitação, ousadia e timidez que dificilmente encontra parâmetros ou similar. É quase uma “catarse individual”, que pode assumir proporções inimagináveis quando incentivada pelo coletivo. É como conectar-se consigo mesmo e com todo mundo na volta de uma só vez.

Cantar é colocar pra fora, é sentir-se compreendido porque alguém, um dia, fez uma música que parece ter sido escrita sob encomenda. É poder dizer o que se pensa, mas em palavras bonitas, com ritmo que contagia e uma orquestra inteira (ou a banda de amigos da facul) pra acompanhar.

Cantar pode não trazer de volta aquele amor perdido, pode não levar embora aquela preocupação que persegue e assombra, pode não resolver todos os seus problemas e nem oferecer, inteiramente de grátis, um brinde especial. Mas cantar é divertido pra cacete e isso é tudo que cantar precisa ser.

Porque vibro em consonância com a massa, me integro à cola que mantém unido o social. Mesmo que por breves 90 minutos, mesmo que de forma efêmera e descontinuada, em meio aos cantos que enchem o estádio e ao concreto que vibra no mesmo timbre dos pés e mãos em movimento, sou parte do ser social. Em contato com o outro, compreendo o mundo e a mim mesmo, compartilho e formo laços, faço parte daquilo que constitui o espírito do tempo.

É por isso que eu vou no jogo ao invés de me ater aos livros. Faça parte do objeto, diz o Maffesoli. E eu vou.