sexta-feira, 27 de abril de 2007

Eu sou aquilo que vejo, eu sou aquilo que falo

Sou manifesta em desejo, sou tudo aquilo que calo.

Sou como você me enxerga e como me enxergo também

Sou o que quero até onde posso e, às vezes, muito mais além.

Sou aquilo que compartilho e o que é meu em particular

Sou o caminho que trilho e o destino que quero alcançar

Sou a música que toca quando fecho os olhos em devaneio

Sou as pessoas que amo, sou as conquistas que anseio

Sou todos os livros que li e os amigos que fiz pela estrada

Sou cada obstáculo e medo, sou cada dor superada

Sou todo filme que gosto, sou cada sabor que escolhi

Sou as batalhas que quis enfrentar e também aquelas das quais corri

Sou fruto das minhas escolhas, sou rumo da minha vida

Sou lógica e contradição, sou coesa e sou dividida.

Sou tantas coisas ao mesmo tempo que, às vezes, até me esqueço

Sou estranha a mim mesma, nem sempre me reconheço.

Sou uma, sou muitas e logo já serei outra.

Sou eu e isso me basta.

quinta-feira, 26 de abril de 2007

Quem me vê toda sorridente não sabe a dor que carrego aqui dentro, desconhece a náusea que me consome as entranhas, não imagina tudo aquilo que penso. O turbilhão de frases que ele me disse, misturadas ao que eu mesma já me falei, tentando me convencer de que já não é mais hora, tentando entender o que já não sei. Procuro fazer a coisa certa em um mundo que só me dá opções erradas. Procuro encontrar o melhor caminho em uma avenida que não tem mais entradas. Querendo cair no esquecimento, na doce embriaguez do sono senil. Querendo romper com todo o passado, deixar tudo isso de lado, sair desse buraco vazio.

Meu sorriso é meu melhor escudo, mas, grande ironia, não me protege de mim.

quinta-feira, 19 de abril de 2007

Eu tenho outra por dentro que só aparece quando o amor chama. Mas daí ela toma conta, se espalha por tudo como se fosse a dona da casa e, por um bom tempo, não quer mais sair. A outra é feita de extremos por dentro e por fora, tem saudade daquela que dói, que acelera a respiração e não deixa pensar em mais nada. A outra não conhece limite, não respeita espaço ou horário, querendo invadir o outro também. Ela sabe cobrar na mesma medida que se oferece inteira. Se enche de fúria, de dúvida e de medo na hora em que deveria ser mais feliz. A outra persegue, paranóica, prevalecida. Está sempre correndo atrás de alguém que nunca consegue alcançar. A outra não se sacia, não se completa, não se contenta. Quer sempre mais e mais e mais e mais e mais. A outra só vive pra ele, existe pra ele, se molda pra ele. Cada passo ou decisão é em busca do seu olhar.

A outra muda o cabelo, dá risada em troca de nada, compra roupa nova e é feliz, imensamente feliz, feliz de dar inveja só pra ele saber. A oura mantém contato, pra garantir que não vai ser esquecida, sem notar que é ela que não consegue esquecer. Arruma desculpa, procura história escondida em palavras, se recusa a acreditar e por isso não consegue ver. A outra sofre de dar dó, chora escondida no cantinho do banheiro e chora de novo voltando pra casa, mas nunca deixa ninguém saber. A outra não se dá por vencida, por mais que apanhe, não vai embora, por mais que eu a mande. Que merda, a outra sou eu.

terça-feira, 3 de abril de 2007

Quando fecho os olhos é que realmente te vejo.

É na tua ausência que te tornas a melhor companhia.

É no meu silêncio que conversamos por horas e horas.

Quando não dizes nada, tua voz se torna poesia.

Quando cai a chuva eu sinto teu cheiro.

Quando estás longe, eu realmente posso te beijar.

Quando não te tenho é que te entregas por inteiro.

Porque é só no meu amor que eu sei que podes me amar.

E, nesses versos de pé quebrado,

É que te conto tudo o que quero dizer;

Te amo, te odeio, me revelo, desabafo.

É uma pena que nunca venhas a ler.

Pobre narciso, de olhos fechados, não enxerga mais do que o seu egoísmo pode ver.

Perdido em si mesmo, pelos próprios humores atado, pensa que é livre, mas é escravo daquilo que não pode ter.

Pobre narciso de espírito quebrado, não enxerga a si mesmo a não ser pelos olhos de quem lhe dá atenção.

Seu sorriso esconde que, desnorteado, busca, quase desesperado, na mão do outro o seu momento de redenção.

Pobre narciso afogado no espelho, enfeitiça e seduz aqueles que passam pelo seu caminho.

Mas narciso não se doa, não troca, não afaga, não sabe existir a não ser que seja sozinho.

Pobre narciso que, com seu canto triste, esconde a solidão que aos pouco lhe mata, esvaindo-se em nada de forma sutil.

Sua imagem distorcida, abstrata, não reflete mais nada além do próprio vazio.