quinta-feira, 15 de março de 2007
quarta-feira, 14 de março de 2007

" And now I'm all alone again
Nowhere to turn, no one to go to.
Without a home, without a friend
without a face to say hello to
But now the night is near
And I can make-believe he's here
Sometimes I walk alone at night
When everybody else is sleeping
I think of him and then I'm happy
With the company I'm keeping
The city goes to bed
And I can live inside my head"
(C.-M. Schoenberg; Boublil/ Kretzmer, On My Own, Aponine's theme)
(Imagem: A Rose in Misery, for original edition of Les Misérables)
O meu choro ninguém pode ouvir
Gritando abafado dentro de mim
Minha lágrima não rola no rosto
Presa no olho, sem começo, sem fim.
O nó na garganta que me sufoca
Não modifica o tom da minha fala
A náusea que come o meu corpo por dentro
Não me enfraquece, empalidece ou abala.
Sofro calada como a pena do meu algoz
Em triste silêncio que aos poucos me mata.
Sofro sem ao menos saber o porquê
Dessa mudança repentina, alteração insensata.
Sofro pelo descaso de quem me dizia o mundo
E, agora, já não me diz mais nada.
Dia desses fui às compras, ver se achava uma chave de trancar coração. O meu andava escancarado, desprotegido, à mercê de qualquer mão-leve que passasse por ali. Primeiro procurei na ferragem, mas o moço atrás do balcão me disse que só se fosse de ferro, zinco ou latão. O meu era de desejo, então, decidi continuar.
A parada seguinte foi no serralheiro. Já que a chave estava difícil de achar, então que ele me fizesse uma grade, daquelas com flechas na ponta, pra intimidar qualquer tentativa de aproximação. Mas, infelizmente, o meu coração também não se prestava pra isso. “Falta uma base pra colocar a grade”, disse ele, “esse seu é muito aberto, muito frouxo, desse jeito qualquer um pode entrar”.
Cansada, já meio triste, pensei que me restava apenas mais um recurso: abandoná-lo de vez num velho cofre de banco, alheio ao mundo lá fora, quietinho, protegido em meio à escuridão. Entrei decidida pela porta que girava e a arma na cintura do guarda me certificou ainda mais da decisão já tomada. Segui firme pelo saguão, passos rápidos, o barulho do salto ecoando pelo piso encerado. Parei no balcão, o coração apertado entre os dedos, pronto pra ser engavetado. Respirei fundo e só então percebi o menino que me sorria do outro lado. Foi o que bastou pra tudo se resolver. Na hora estendi os braços e, simples assim, meu coração foi acolhido no dele, satisfeito e sereno, seguro e feliz.